Cruz das Almas tem algumas histórias bem curiosas, que andam de boca em boca como se fossem memórias e que vão sendo requentadas, vez em quando, em conversas de fim de tarde entre amigos na Pérgula, no bate-papo durante um corte no salão de barbeiro ou até mesmo na cadeira do dentista, entre um e outro procedimento dentário.
E uma dessas histórias/memórias fala da passagem de Jorge Amado pela cidade, entre as décadas de 40 e 50 do século passado. Há quem relate que o escritor baiano, já famoso ou quase, teria passado uma temporada por aqui, coisa de dias ou semanas, para cuidar da saúde, atraído pelo clima ameno que era tido como saudável. Dizem que ele ficara hospedado numa pensão ali detrás da igreja matriz. Mas há quem garanta que ele chegou a morar por mais de mês em uma casa alugada (ou emprestada?) que não chamava a atenção pela arquitetura discreta, mas era bem localizada ali na praça.
E as versões dessa história não param por aí. Um outro cidadão recorda-se ter visto Jorge Amado conversando animadamente entre prateleiras de remédios, no pé do balcão da Farmácia São Salvador, como se discutisse política (ou literatura?) entre distintos senhores locais. Outro, ouviu dizer que o escritor costumava se pesar na balança de fumo do armazém de Desidério Brandão, confiante na exatidão do ponteiro. Ninguém mostra provas, um retrato sequer, mas todos falam com a certeza de quem enxergou de perto.
Além disso, uma ligação familiar parece reforçar esta crença e que torna a visita bem mais verossímil: Jorge era cunhado da escritora cruzalmense Jacinta Passos, casada com James Amado. Mas quando a historiadora Janaína Amado, filha de Jacinta com James, foi consultada a respeito, a história ganhou outro tom. Ela disse não conhecer referência alguma da estadia do tio em Cruz das Almas; embora Janaína se lembrasse de que seu pai James, irmão de Jorge Amado, tivera estado por aqui no início da década de 50 para comprar gado. Parecidos na fisionomia e no sobrenome, um pode facilmente ter sido trocado pelo outro nas lembranças alheias.
E é nessa encruzilhada que a história permanece. Teria sido Jorge, atraído pelo ar saudável e pelo sossego? Ou apenas James, discreto em seus negócios? O certo é que Cruz das Almas guarda a dúvida com carinho. Na falta de prova, fica a imagem de um homem sorridente pesando o próprio corpo em uma balança de fumo, enquanto a cidade, cúmplice, mantém a presunção de ter dividido o mesmo ar com o autor de “Gabriela, cravo e canela”.


