A chamada História Oficial de Cruz das Almas repete, com certo ufanismo, que tanto Manoel Caetano de Oliveira Passos “o Velho” quanto seu filho Themístocles da Rocha Passos, considerados os patriarcas da cidade, foram membros da Guarda Nacional no período do Império do Brazil (com “z” mesmo, conforme grafia da época), alcançando as patentes de Tenente-Coronel e Major, respectivamente, chegando a comandar o Batalhão 17 em 1862, no então distrito de Cruz das Almas. É um dado que costuma ser celebrado como sinal de prestígio e influência.
Mas convém lembrar o que, de fato, foi a Guarda Nacional. Criada em 1831, na teoria pregava ter como missão “defender a Constituição, a liberdade, a independência e a integridade do Império, além de garantir a ordem interna e auxiliar o Exército na defesa de fronteiras e costas”. Na prática, tratava-se de uma milícia elitista composta por cidadãos das camadas mais abastadas, e que funcionava também como espaço de poder político local.
O discurso tradicional omite, no entanto, que a Guarda Nacional participou ativamente da aplicação na região da política indigenista do século XIX, que visava assimilar os povos originários e dissolver suas culturas. Esse processo resultou na perda de terras, no esvaziamento de aldeias e na invisibilização de comunidades inteiras, muitas vezes rotuladas como de caboclos ou mestiços, contribuindo inclusive para o extermínio de muitas etnias.
Assim, quando falamos do lugar ocupado por Manoel Caetano “o Velho” e Themístocles na Guarda Nacional, é importante situar esse dado dentro de um quadro mais amplo. A mesma instituição que consolidava a liderança de elites locais também servia como instrumento do Estado na exclusão dos indígenas.
Ora, refletir sobre isso não diminui a importância de algumas figuras icônicas, mas ajuda a enxergar com mais clareza a complexidade de nossa história. Afinal, contar a história de Cruz das Almas não deve ser apenas repetir títulos e patentes, mas também compreender os contextos em que eles foram forjados.


