Ontem, caminhando pelos corredores da ExpoFlores (que agora chamam de ExpoCruz), me veio uma lembrança doce e meio esquecida. Não era de nenhuma planta exótica ou arranjo elaborado exposto nas bancas. Foi de algo muito simples, mas que fazia parte do coração da cidade: os ramalhetes de flores que as donas de casa compravam na feira, dia de sábado religiosamente, como se fosse um gesto de fé.

Até os anos 80, 90, lembro bem que ninguém saía da feira de Cruz sem ter comprado, entre carne, verdura e feijão de corda, um ramalhete de angélica ou de palma-de-santa-rita. A primeira, branquinha, delicada, perfumava a casa de um jeito quase exagerado, tanto que havia quem reclamasse da intensidade. A segunda, alta, silenciosa no aroma, mas cheia de presença, completava o altar doméstico. Era como se a casa, mesmo limpa e encerada, só estivesse verdadeiramente arrumada quando essas flores encontravam o seu canto em cima da mesa ou no aparador. E se essa lembrança não era na sua casa, provavelmente era na casa de uma vizinha, tia, madrinha, avó, professora… enfim!

Eu mesmo me lembro de, moleque ainda, ir à feira com Tia Célia e junto com as carnes verde e seca, a farinha, as frutas, as pimentas e o cheiro-verde, o que não podia faltar de jeito nenhum era o ramalhete de palma-de-santa-rita. Era compra obrigatória, igual ao pão do dia. Lembro do jeito sério dela escolhendo as hastes mais firmes, como quem sabia que aquilo não era apenas enfeite, mas uma extensão da beleza da casa, um detalhe que transformava o ambiente em lar.

E hoje? Será que ainda vendem palma-de-santa-rita e angélica na feira? Ou será que esse hábito foi ficando no esquecimento, como tantos outros que a cidade vai deixando para trás? Talvez alguém ainda compre, discretamente, sem dar alarde. Talvez tenha se tornado coisa de poucos, um costume que, como dizem, saiu de moda.

Pois é! Não deixa de ser curioso como essas pequenas tradições dizem tanto de nós, cruzalmenses. As casas enfeitadas e perfumadas com angélicas e palmas-de-santa-rita eram uma espécie de cartão de visita. E mesmo que o perfume da angélica já não esteja tão presente, ou as cores da palma já não se vejam tanto, a lembrança ainda nos enche de um tipo raro de saudade: do simples, do singelo, do belo… sem ostentação!

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.