Antigamente, em Cruz das Almas, o dia começava com o bater ritmado e o tilintar dos galões de metal sacolejando na carroça. Era o leiteiro que passava. Chamava na frente de casa, e as donas da casa já sabiam: era hora de pegar a vasilha, que ficava na janela ou no muro, ali pertinho do portão. Ele despejava o leite ainda morno, recém saído da vaca (digo, daquela manhã mesmo!), e o cheiro doce se espalhava no ar. Bastava ferver o leite que, aliás, tinha gosto de leite de verdade.
Os leiteiros, os nomes variavam de rua para rua, mas o ritual era o mesmo. Na minha lembrança, o leiteiro se chamava Rosalvo. A diversão da garotada era subir na carroça e seguir com ele até o fim da rua, balançando entre os latões e as tampas metálicas, fingindo que era uma viagem longa. Mas havia também outros nomes que soam como música antiga na memória coletiva: Gonçalo, Zé Preto, Chico do Leite, seo Memeu, Braulino, seo Zica, seo Roseno. Cada um com seu jeito, sua carroça, seu cavalo ou sua bicicleta e uma paciência que hoje já não se vê mais.
Mas havia ainda quem preferisse acordar cedo para buscar o leite na casa de D. Zuzu, mãe de Josuete do IPEAL ou na fazenda de dona Haydê, irmã de Dr Fonseca. Era uma pequena aventura matinal. O caminho até o curral era cheio de vida: o orvalho nas folhas, os passarinhos disputando espaço nos galhos, e um cachorro vira-lata valente que insistia em nos barrar a passagem. Mas logo aparecia Gerônimo, o administrador, com seu chapéu de palha e seu jeito calmo, que afugentava o bicho com duas palavras e um aceno de mão.
Era bom, principalmente na primavera. O ar vinha perfumado de flores silvestres, misturado ao cheiro do curral — um cheiro que hoje ninguém mais saberia descrever, mistura de leite fresco, capim e terra molhada. Muitos anos depois, aquele pedaço de chão virou os bairros Inocoop e São Francisco. E, no lugar dos bezerros e das carroças, vieram os carros, as casas alinhadas e o silêncio das manhãs sem leiteiro.
Mas hoje, às vezes, quando o leite ferve na leiteira e o vapor sobe, parece que o cheiro do passado insiste em voltar. E lá no fundo da memória, fechando-se os olhos, ainda se escuta o rangido da carroça, o chamado na porta, o bater do caneco nas vasilhas de metal. E dá vontade de responder:
— Já vai, seo Rosalvo! Só um minutinho que eu já levo a vasilha. Bom dia!


