Agora inventaram uma tal de água saborizada. Enfeitam-se os copos com rodelas de limão, folhas de hortelã, morango, e até pepino. Chamam de sofisticado. E lá estão as jarras transparentes, com gelo filtrado flutuando e frutas cortadas a boiar, perfeitas para a foto do Instagram. Mas, convenhamos: não é suco e nem é água pura.

Lembrei-me, outro dia, que lá no começo dos anos 2000 virou moda comprar garrafões de água mineral em Cruz das Almas. Era um luxo novo, um símbolo de progresso. Eu trabalhava numa loja e o patrão, muito prático, mandava encher aquele garrafão azul com água do poço artesiano do IBF. Dizia que era “água boa, igualzinha à mineral”. E lá se iam os copos servidos aos clientes com ar de sofisticação, quando na verdade era só água do poço mesmo.

Mas houve um tempo em que a água era objeto de um ofício importante. Era o tempo dos aguadeiros, que transportavam água potável em barris de madeira nos lombos de mulas que desciam e subiam ladeira e seguiam pela estrada às vezes empoeirada, às vezes enlameada.

Cruz das Almas teve seus heróis da água: Zé de Bibiano, seu Mano, seu Inocêncio, seu Antonin. Eles carregavam o frescor da vida nas costas dos animais, enchendo barris nas fontes que hoje sobrevivem mais na lembrança do que na natureza: a Fonte do Doutor, o chafariz na Mata de Cazuzinha, a Fonte da Nação na Sapucaia ou a Fonte do Barricão.

Era um ofício rotineiro e necessário. As famílias esperavam o aguadeiro como quem esperavam o padeiro ou o leiteiro. Ele chegava, despejava o conteúdo dos barris nas talhas ou nos potes grandes de barro da cozinha. A água ficava ali, fresca e pura, com aquele gostinho de terra boa e de sombra. Bastava uma canequinha daquele líquido refrescante e pronto: era água pura de verdade, sem hortelã nem pepino.

Hoje, tudo virou gourmet, tem rótulo, é industrializado. Mas quando imagino aquelas manhãs em que o aguadeiro passava devagar pelas ruas, percebo que não era só água o que as pessoas adquiriam. Era natural, simples e confiável.

A água saborizada de hoje pode ter frutas coloridas numa jarra bonita, mas em nada deve lembrar aquela água boa e pura de antigamente.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.