Noutro dia desses, enquanto participava de um podcast, deixei escapar uma ideia que sempre me ronda quando penso no 29 de julho de 1897. Provavelmente, aquele dia foi um dia comum. Sem festa, sem discursos inflamados, sem banda na praça. Cruz das Almas recebeu a notícia da emancipação e a vida seguiu. Nada de povo nas ruas gritando vitória, nada de foguetório para celebrar a separação de São Félix. A emancipação, que hoje veste um tom de conquista coletiva, parece ter sido mais um movimento de gabinete do que um clamor popular.

Costuma-se repetir que a cidade se libertou de São Félix, mas a palavra libertação soa exagerada. Não houve luta, nem barricadas, nem mesmo um abaixo-assinado ruidoso como aquele que, dizem, marcou a emancipação de São Félix em relação a Cachoeira. E mesmo nesse caso, quando se fala que houve uma lista de assinaturas encabeçada pelo arraial de Cruz das Almas, sempre me pergunto: quantas pessoas do povo, em 1897, sabiam ou tinham sequer o hábito de assinar o próprio nome?

O mais provável é que tudo tenha sido articulado por uns poucos, mas importantes, como eram os Passos, a influente família que guiava os rumos políticos da região. Foram eles que desejaram a emancipação, que trabalharam para que a vila se tornasse município, que moveram as peças necessárias nos bastidores da província. (E não há aqui nenhum veredito de mérito ou culpa; apenas o registro de um fato que raramente aparece nas narrativas festivas.)

Não digo isso para diminuir a data, muito menos para negar sua importância. Apenas para lembrar que a história, quando revisitada sem romantismo, ganha contornos mais humanos. Talvez o 29 de julho tenha sido apenas uma quinta-feira de céu limpo ou de chuvas passageiras. Talvez os sinos tenham repicado, mas não por causa da emancipação. Talvez ninguém tenha dado por falta de um ato solene, porque a vida, como sempre, já chamava para outras urgências.

Festa mesmo deve ter havido em 1º de dezembro daquele mesmo ano, o dia da inauguração da nova vila.

Hoje celebramos com desfile e banda, como se recuperássemos a festa que nunca houve naquele 29 de julho. E está tudo bem, isso tem sua beleza. O que importa não é apenas o dia da assinatura, mas a maneira como cada geração escolhe dar sentido ao passado.

E vida que segue…

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.