Hoje, como normalmente faço nas manhãs de domingo, gosto de dirigir-me ao Hiper São Paulo e, no caminho, observo a cidade tranquila, absorvendo a paisagem cruzalmense. Adoro!
Atravesso a Crisógno Fernandes (não a nova, a antiga mesmo, a de sempre!) e caminho pela Rua Dr. Ribeiro dos Santos, ali onde mora a cantora Cássia Maria “a Diva”.
Sinto uma alegria ao lembrar da história deste conterrâneo. Uma pena que não lembrem dele nas aulas da escola logo ali na esquina; seria um exemplo e tanto para a garotada.
É incrível como, na nossa História, há nomes que o tempo engole em silêncio, como se uma força invisível apagasse os rastros de sua passagem. Entre esses, está o do Dr. Ribeiro dos Santos, um médico cruzalmense do século XIX, cuja história parece ter se dissolvido no ar.
Mas quem procura, acha! Pesquisando na hemeroteca da Biblioteca Nacional, encontro a menção, com certa admiração, de uma importante invenção do doutor da “Fonte do Doutor”.
Ali, na Gazeta Médica da Bahia de 1884, se lê, em linguagem solene e cheia de “ph” e “ll”, que o Dr. Ribeiro dos Santos inventou um aparelho chamado chromatoscópio, destinado ao estudo da achromatopsia (distúrbio da visão das cores), especialmente útil em casos de cegueira parcial causada pelo álcool ou pela nicotina. Era um tempo em que a medicina dava passos incertos, mas geniais. E em meio a tantas limitações técnicas, esse médico do interior ousou criar um instrumento de precisão e de beleza conceitual.
O chromatoscópio, conforme descreveu o próprio inventor, consistia num disco rotativo coberto de papéis coloridos, branco, vermelho, verde e azul em dois tons que, vistos por uma pequena abertura, permitiam testar a percepção cromática de quem o observava. Um engenho simples, mas profundamente inovador para a época, feito de borracha negra, com cruzes e orifícios cuidadosamente medidos. Servia, ainda, para explorar o campo visual periférico, e antecipava, de certo modo, os modernos testes oftalmológicos.
Mas quem foi, afinal, esse Dr. Ribeiro dos Santos? Cruz das Almas, que tanto se orgulha de seus filhos ilustres, parece tê-lo deixado à margem da memória.
Nascido em Cruz das Almas, na antiga Fazenda Bonsucesso, onde brotou um dia a famosa Fonte do Doutor, estudou em Salvador, lá fez Medicina e iniciou a clínica ao lado do célebre Dr. Moura Brasil, o mesmo cujo nome atravessou gerações no rótulo de um colírio famoso. Médico de vocação e espírito inquieto, destacou-se também como político e empresário, alcançando sucesso nas duas frentes. Era um homem de seu tempo e, ao mesmo tempo, à frente dele: conciliava o rigor científico com a habilidade de quem compreendia a vida pública e os negócios.
Há uma certa poesia em redescobrir figuras assim. Elas lembram que a inteligência e a curiosidade científica também floresceram nos rincões do Recôncavo. Que um cruzalmense, alguém profundamente ligado à cidade, foi capaz de dialogar com a ciência mundial no tempo dos lampiões e das cartas enviadas por navio.
O chromatoscópio talvez tenha desaparecido, como desaparecem as invenções que vão sendo modernizadas. Mas a marca do inventor permanece: o impulso humano de compreender o invisível, de transformar o olhar em instrumento de descoberta.
Hoje, ao folhear digitalmente as páginas amareladas da Gazeta Médica da Bahia, é como se o Dr. Ribeiro dos Santos sorrisse de algum lugar do passado, satisfeito em saber que, ao menos por um domingo, Cruz das Almas volta a lembrá-lo.


