Foi anteontem.
Sim, em Cruz das Almas, mais uma sexta-feira dessas em que o vento sopra manso, mas o ar quente deixa o tempo meio abafado. Será que vai chover?
A Casa da Cultura como sempre, viva. De portas abertas e com Dr. Hermes, pura simpatia, de braços abertos para nos receber. As pessoas entrando, amigos cumprimentando amigos, procurando lugar, sorrindo antes mesmo de o show começar. Mesas e cadeiras sendo ocupadas pela plateia que por ali já se formava.
O palco simples, mas bem arrumado, aguardava o som de um cruzalmense que já há algum tempo faz da música esse elo entre o nosso passado recente e a nossa emoção presente: Robertinho Lago, dessa feita com o show Tocando, Contando e Cantando.
Ao som de Beatles, Armandinho, Dodô e Osmar…
Logo nos primeiros acordes, o público percebe que aquela não seria apenas uma noite de canções, mas também de memórias. A participação de Zinaldo Velame, com sua presença afetuosa, completava a cena. Sempre emocionante ver e ouvir Zinaldo cantando na Casa da Cultura; dá uma nostalgia boa, uma alegria.
…Fagner, Moraes Moreira, A Cor do Som, Guilherme Arantes…
Apesar do céu meio carregado, de repente, lá em meio às densas nuvens, eis que surge a lua, de soslaio, só para bisbilhotar um pouquinho do espetáculo. (Consegui com a câmera do celular captar e registrar o rápido flagrante lunar!)
… Biafra, Capinan, Belchior, Rita Lee, Raimundo Sodré …
E segue o show. A cada pausa entre as músicas, Robertinho permitia-se abrir pequenas janelas do tempo, por onde deixava escapar histórias que vinham de longe, de um menino encantado com um rádio e uma canção. Contou ele que era apenas um garoto de quatro anos quando viu um rádio pela primeira vez. O aparelho parecia um milagre: de dentro daquela caixa, brotou a Ave Maria, seguida de uma voz que o marcaria para sempre: Luiz Gonzaga cantando Asa Branca. Foi ali que a música se instalou nele, como semente em terra fértil.
Dez anos se passaram, e o destino tratou de repetir a cena, mas agora ao vivo. Robertinho e os colegas da rua souberam que haveria um show na Praça da Bandeira e correram pra lá. No palco em cima de um caminhão, um homem de sanfona branca tocava justamente Asa Branca. Era ele, o mesmo do rádio, o Rei do Baião. Quando o show terminou, o artista desceu e foi, abraçado pelos presentes e seguido pela meninada até a Praça Senador Temístocles. Ali, no lugar onde hoje brilha a fonte luminosa, sentou-se e começou a conversar com as pessoas, contando histórias de estrada, de sertão e de fé. Até que alguém o chamou: “Bora, sêo Luiz!”; e ele partiu num jipe, deixando no ar o cheiro da poeira e a lembrança de um encontro inesquecível.
Anos depois, o menino que naquela noite o havia seguido entre risos e curiosidade, já adulto estaria num palco em Salvador, tocando antes da apresentação de quem? Seo Luiz Gonzaga. O mesmo, só que agora visto de perto, de músico para músico, tocando… Asa Branca!
Enquanto Robertinho narrava essa travessia, a plateia parecia também voltar no tempo. Havia no ar a sensação de que tudo fazia sentido, como se o destino tivesse ensaiado aquele enredo com paciência. O menino do rádio e o rei do baião se encontraram mais de uma vez, e dessas coincidências nasce a música que ecoa até hoje, nas noites agradáveis de sexta-feira, quando Cruz das Almas se reconhece nas notas e lembranças de seus artistas.
…Pimenta N’Ativa, Banda Energia e Banda Ouriço…


