A comemoração dos 103 anos da Filarmônica Lira Guarany, ontem, 15/11, me trouxe de volta uma história que mora no imaginário da cidade. É daquelas lembranças que alguns cronistas resgataram ao longo do tempo e que a gente reconhece como patrimônio afetivo, mesmo sem ter vivido.
A Cruz das Almas de antigamente tratava suas filarmônicas com um apreço que hoje parece coisa de romance antigo. As bandas eram parte da identidade da cidade e ocupavam lugar de honra nos eventos sociais. Quando tocavam na praça, era como se a vida ganhasse outro ritmo.
Dizem que havia torcidas, e não era exagero. De um lado, a Euterpe Cruzalmense; do outro, a Lira Guarany. As duas atraíam admiradores fiéis pela força da música e pelo brilho dos seus regentes. A presença de cada banda mobilizava a cidade. Era comum que as famílias se dividissem, cada qual defendendo sua preferida com uma alegria quase contagiante.
Entre tantas histórias desse período, uma se tornou quase lenda. Aconteceu num daqueles domingos festivos dedicados à Padroeira, lá na década de 40. O coreto foi o palco natural das tocatas, e ali as duas bandas se encontraram, cada uma guiada por mãos experientes. Silvestre Mendes comandava a Euterpe; Cizinio Cintra, a Lira. As torcidas se espalhavam pela praça, formando um mar de gente ansiosa pelo duelo que se anunciava.
Quando a Euterpe tocava, a Lira respondia. Depois era a vez da Euterpe tentar superar a apresentação anterior. A madrugada avançou, e os músicos no coreto continuavam firmes, mantendo uma disputa que misturava arte, orgulho e uma boa dose de vaidade. Nenhuma das bandas queria ceder. Sair primeiro significaria aceitar a derrota, e isso estava fora de cogitação.
O impasse tomou proporções que exigiram a intervenção de um importante líder político da época, membro da família Passos, o deputado Manoel Caetano, que apareceu para apaziguar os ânimos. Dada a relevância da delicada situação, era preciso encerrar aquela noite sem ferir o prestígio de nenhuma das partes. A solução, simples e engenhosa, mostrou a elegância da cidade naquele tempo. Os músicos entraram num acordo e começaram a descer do coreto, concomitantemente, um de cada banda. Ao final, desceram também os dois maestros, como se dissessem à população que o que importava era preservar a harmonia dentro e fora do palco.
Com o tempo, a cena ganhou o brilho de uma história que a gente conta porque ajuda a entender quem somos. Ao lembrar os 103 anos da Lira Guarany, pensei no quanto essas memórias explicam a força da música na vida cruzalmense. A cidade mudou, mas ainda guarda, em algum canto da alma, o antigo entusiasmo das noites de retreta no coreto.
E talvez seja isso que faz com que as filarmônicas, apesar dos pesares, sigam vivas. Elas não apenas tocam. Elas despertam em nós, cruzalmenses, uma recordação que nunca envelhece.

