A ESCRAVIDÃO SILENCIOSA DO RECÔNCAVO

Em Cruz das Almas, pouco se fala sobre o passado escravista. A cidade parece ter preferido o silêncio à lembrança, como se a ausência de ruínas de senzalas fosse prova de uma história menos dura. No entanto, o Recôncavo Baiano foi um dos grandes cenários do trabalho cativo nos séculos XVIII e XIX. E é nesse silêncio que mora uma das mais sutis expressões da dominação: a falsa sensação de liberdade.

Nos engenhos da região, muitos escravizados eram autorizados a cultivar pequenas roças. Nessas áreas, plantavam feijão, mandioca, frutas e outros alimentos para o consumo próprio ou para pequenas trocas e vendas. Essa prática, à primeira vista, parecia um gesto de benevolência senhorial, mas, na verdade, fazia parte de uma estratégia de controle. Ao permitir uma agricultura de subsistência, o senhor de engenho reduzia custos com alimentação e, ao mesmo tempo, mantinha o cativo preso à terra, enredado em uma ilusão de autonomia.

A mandioca, abundante e nutritiva, foi o eixo dessa engrenagem. A farinha alimentava milhares de escravizados, garantindo energia para o trabalho pesado e baixo custo de manutenção para o sistema. Era a base da economia da servidão, o alimento que sustentava a riqueza de poucos e a submissão de muitos. Por isso, não é comum encontrar vestígios de senzalas nas antigas fazendas do Recôncavo. A escravidão, aqui, se diluiu na paisagem rural, disfarçada entre plantações e engenhos, sustentada mais pelo hábito do que pelos grilhões.

Mas o Recôncavo não viveu apenas da cana-de-açúcar. O cultivo do fumo, que encontrou em Cruz das Almas e arredores um terreno fértil, foi uma atividade econômica crucial, embora organizada de forma distinta do modelo de plantation açucareira, conforme constatado por Barickman em sua obra Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860. A produção destinava-se ao mercado externo e, apesar de empregar mão de obra escravizada, também contava com trabalhadores livres. Era uma economia mista, que complementava a açucareira e chegou a ocupar o segundo lugar nas exportações da Bahia no século XVIII, atrás apenas do açúcar. Em muitas propriedades, os dois cultivos coexistiam.

A escala de produção era menor. O fumo crescia em pequenas e médias propriedades, onde o controle direto do senhor substituía a rigidez das grandes fazendas de cana. O trabalho era diversificado: escravizados dividiam o espaço com lavradores livres e meeiros. Ainda que a presença do cativo fosse marcante, a fumicultura não dependia exclusivamente do tráfico atlântico, o que a tornava uma economia de transição, moldada tanto pela escravidão quanto pelas primeiras formas de trabalho livre no campo.

Essa convivência entre o cativeiro e a liberdade aparente marcou profundamente a vida social de Cruz das Almas. Entre a cana e o fumo, entre a senzala invisível e a roça permitida, construiu-se uma sociedade de silêncios e acomodações. Falar disso é romper o pacto da omissão. Cruz das Almas, assim como tantas outras cidades do Recôncavo, precisa reconhecer que sua história também se ergueu sobre o esforço forçado de homens e mulheres africanos e seus descendentes. A memória da escravidão não se apaga pela falta de muros, mas permanece nas práticas, nos costumes e nos silêncios que ainda hoje insistem em permanecer.

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