Dia desses, eu estava pensando como deviam ser os domingos de antigamente em Cruz das Almas. Quer dizer, nem tão antigamente; refiro-me aos anos 60 e 70. Fiz uma pesquisa rápida, recorri à memória coletiva da, então, juventude cruzalmense e imaginei o seguinte…

As manhãs de domingo, geralmente, deveriam ser reservadas às missas do recém chegado padre Neiva. Quem não seguia para a igreja buscava algum tanque, fonte ou rio, deixando que um bom banho de água fria refrescasse o corpo. Outros preferiam as roças (geralmente alheias), à cata de frutas da estação para saborear. Havia ainda o campo do CEAT, sempre ocupado por algum baba que reunia jogadores de todas as idades.

Depois vinha o tradicional almoço de domingo, mais farto do que nos outros dias e mais barulhento também.

Já as tardes de domingo, imagino que tinham um jeito próprio na Cruz das Almas daqueles anos. Saía-se da matinê no Cine Glória ainda com a imagem do herói vencendo o bandido naquela  sessão. O sol ia se pondo com calma, sem pressa, e a cidade ganhava um ar sossegado que durava até a esquina do Cruz das Almas Clube. Ali, sossego nenhum se mantinha.

A quadra fervia. Era dia de jogo, e jogo clássico dos que mudavam o humor da semana. A arquibancada cheia exalava cada palpite alto e cada crítica pouco discreta.

Algumas presenças destacavam-se: Tonhe de Irineu à beira da quadra, braços cruzados e atenção absoluta era o técnico e organizador; tinha também Seco, Veinho, Samuca, Biquita, Benê e Bó. Personagens que enchiam o cenário de vida.

No Clube, metade da graça estava na algazarra. A outra metade vinha da sensação de pertencimento, como se toda a cidade coubesse ali, comprimida naquele retângulo vibrante, respirando no mesmo ritmo e torcendo com a mesma ansiedade. Quando o gol saía, o teto parecia ameaçar voo.

Depois do jogo, seguia-se para o AABB, quando era ali na J B da Fonseca e funcionava como clube, lanchonete, bar, restaurante, o que fosse preciso. As mesas de pingue-pongue e sinuca nunca ficavam vazias.

Mas o que atraia mesmo as pessoas para aquele lugar era o som dos Rebeldes. O grupo tinha uma ousadia que fazia vibrar quem queria novidades e incomodava quem preferia as coisas do mesmo jeito. Eram como se fossem os Beatles da cidade, desafiando jeitos, modos e certezas. Bastava o primeiro acorde para a turma se aproximar. Cada música empurrava um pouco mais as paredes invisíveis do costume e, vez ou outra, o clima esquentava. Nada que tirasse o brilho do conjunto, que seguia tocando como quem sabe que certos dias merecem ser vistos de longe, com saudade.

Muitos ainda lembram com saudade daquele salão aberto, de ladrilhos vermelhos bem brilhantes. Era o point da juventude, recebia quem quisesse dançar, conversar ou apenas observar.

Quando o ensaio (que mais parecia uma festa) terminava, voltava-se para casa a pé, com ruas tranquilas e amistosas guiando o caminho. O ar fresco da noite acalmava o corpo, enquanto o som dos Rebeldes permanecia nos ouvidos, como se a cidade inteira tivesse decidido guardar aquela trilha sonora para os tempos futuros.

E guardou.

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