Para a crônica de hoje, lembrei-me do tempo que eu frequentava a biblioteca pública assiduamente, era um “rato de biblioteca”. As tardes de estudo na antiga Biblioteca Municipal Carmelito Barbosa Alves voltam à memória como se eu tivesse aberto um álbum esquecido no fundo da gaveta. No meu tempo de escola, aquele prédio amarelo era mais que um espaço público. Era abrigo, era farol, era um portal por onde eu entrava para conhecer outros mundos. E tudo começava logo na entrada, onde havia uma pequena multidão de bicicletas encaixadas umas nas outras. Era tanta bicicleta que parecia até que toda a cidade tinha se mudado para ali.
Lá dentro, no entanto, o silêncio reinava como lei natural. Cheio de estudantes, mas sem ruído. Os únicos sons vinham do arrastar das cadeiras ou do virar de páginas. A diretora D. Yara, firme, conduzia a ordem só com o olhar. D. Vera também marcou presença como diretora, com aquele jeito cuidadoso, assim como as funcionárias Aidil, Graça e Neuza, sempre dispostas a ajudar quem procurava um livro ou precisava de orientação. Cada uma delas faz parte da minha memória como se fossem guardiãs de um templo.
Eu adorava os livros. Todos. Os gibis arrumados nas estantes. As coleções antigas, com cheiro de papel que já tinha visto tempo demais. E, claro, as grossas e pesadas enciclopédias de capa dura. Ah, as enciclopédias! Hoje a juventude cresce com celulares, vídeos curtos e respostas prontas. Mas no meu tempo de estudante, não existia internet, nem Google, nem YouTube. Existiam a Barsa e a Mirador. E nelas que eu mergulhava para montar meus trabalhos. Página por página, letra por letra, copiando à mão, descobrindo tudo com uma paciência que hoje parece quase impossível.
Outro dia, reencontrei meu cartão de empréstimo da biblioteca. Fiquei olhando para ele como quem olha para um retrato da infância. Ali estavam os carimbos, os prazos, a minha letra torta de menino. Por anos fui frequentador assíduo daquele lugar. Talvez tenha sido a fase em que mais li na vida. E se a memória não me engana, o primeiro livro que levei para casa foi Fernão Capelo Gaivota. Não me lembro de ter entendido tudo naquela época, mas lembro da sensação de liberdade que a história me causou. Aquele desejo de ir além, de tentar o que ninguém tentava. De não aceitar o tão chamado destino.
O livro me marcou. Contava a história de um jovem que queria voar sempre mais alto, mesmo quando as outras gaivotas preferiam ficar presas ao que já conheciam. Fernão insistia em testar os limites, sonhava em superar o medo e pagou caro por isso quando foi expulso do bando. Mas não desistiu. Subiu aos céus e descobriu que havia outros como ele, dispostos a vencer barreiras. Acho que, de alguma forma, aquele livro me ensinou que a curiosidade é uma espécie de asas.
E a biblioteca vivia cheia. E não só de alunos, mas havia muitos adultos que frequentavam para leitura dos jornais diários, das revistas Veja e Manchete, dos romances. Eram os leitores. Descobri depois que a biblioteca assim os classificava: alunos ou leitores. Rsrs!
Mas, passado algum tempo, descobri também que muitas pessoas nunca haviam entrado naquele espaço. Um senhor cruzalmense, por exemplo, contou-me que lembrava do lugar onde a biblioteca está edificada, era um terreno utilizado para plantação de fumo e, na lateral direita, era onde ele, quando menino, brincava os babas diários. Ele ajudou a construir o prédio, tijolo por tijolo. E, ainda assim, nunca entrou na biblioteca depois de pronta. Soou-me como a canção Construção, de Chico Buarque.
Pois é. Hoje, quando vou ali, vejo outro tempo. As bicicletas não estão mais enfileiradas. As pessoas que ali frequentam não ficam mais em silêncio absoluto. As enciclopédias dormem nas prateleiras. Mas a lembrança daquele ambiente, de seu cheiro de papel, das tardes compridas e da sede de saber, continua viva. Aquele lugar foi mais que uma escola pra mim. Talvez tenha sido, sem que eu percebesse, o primeiro lugar onde aprendi a voar, tal qual Fernão Capelo Gaivota.
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