Há lugares que falam muito, ainda que silenciosamente. Um sobrado antigo, uma estação ferroviária esquecida, uma velha fazenda que resiste ao tempo, ou uma igreja que há vários séculos observa o ir e vir do povo. Todos esses espaços guardam, em suas paredes e colunas, o murmúrio de gerações, o sopro do passado que teima em não se calar. Preservar essas construções é, portanto, muito mais que conservar pedra, cal e madeira. É proteger a memória concreta de Cruz das Almas.
A preservação da arquitetura de época é o que transforma a experiência de quem passa por algum lugar em algo marcante. Não há turista, visitante ou mesmo morador que, ao cruzar o olhar com o imponente Paço Municipal, aquele casarão centenário, sede dos poderes públicos municipais e que foi testemunha do desenvolvimento político e administrativo da cidade, não sinta uma certa emoção. É como se a história, de repente, se tornasse palpável, respirável. Cada detalhe arquitetônico conta um pedaço da trajetória de um povo que construiu, com suor e esperança, o lugar onde vive.
Mas a pressa da modernidade, tantas vezes cega, ameaça apagar essas páginas do tempo. Quantas casas antigas já não cederam espaço a prédios sem alma? Quantas fachadas originais foram cobertas por rebocos apressados e vitrines impessoais? Em nome da “modernização”, corremos o risco de perder não apenas o que é bonito, mas o que nos identifica. E uma cidade sem memória arquitetônica é como um livro arrancado de várias páginas: perde o sentido.
Os antigos prédios dos armazéns de fumo, por exemplo, ainda espalhados pela cidade, são relíquias de um tempo em que Cruz das Almas pulsava com o ritmo da safra e o cheiro do tabaco curado tomava conta das ruas. Aqueles galpões, de pé-direito alto e janelas largas, guardam histórias de mulheres trabalhadoras e homens trabalhadores, de famílias inteiras que viveram da cultura fumageira. O mesmo se pode dizer da antiga fábrica de charutos Suerdieck: um marco do desenvolvimento industrial e símbolo do esforço de crescimento econômico. Suas paredes, as bancadas e o maquinário que um dia fervilhavam de vida são testemunhas silenciosas de um tempo de prosperidade e ousadia.
Esses espaços, assim como os prédios da Estação do Pombal e do Ramal Cruz das Almas (na Coplan), a bem mais que bicentenária igreja da Embira e as antigas fazendas – que já foram engenhos – e ainda resistem nas zonas rurais, são registros concretos da nossa evolução social, política e cultural. São testemunhos silenciosos de épocas em que Cruz das Almas era ainda vila, com ruas calçadas de pedra, lampiões a querosene e um punhado de sonhos. Cada reforma irresponsável, cada demolição, é uma perda irreparável na narrativa coletiva que formamos.
Um exemplo notável de preservação é o prédio da antiga Cadeia, erguido há mais de cem anos. Sua arquitetura original foi mantida graças ao gesto visionário de quando, na década de 80, o imóvel foi cedido à Fundação Cultural Galeno D’Avelírio. A partir daí, o velho casarão, antes marcado pelo rigor e pelo confinamento, renasceu como espaço de arte, memória e liberdade: a atual Casa da Cultura Galeno D’Avelírio. O que antes prendia corpos, hoje liberta ideias. E isso é o que melhor define o poder da preservação, transformar o passado em alicerce para o futuro.
Preservar, portanto, é também educar. É ensinar às novas gerações que o progresso não precisa vir acompanhado de esquecimento. É possível crescer sem destruir, restaurar sem descaracterizar, inovar respeitando a alma dos lugares. O verdadeiro desenvolvimento se faz quando o passado e o futuro caminham de mãos dadas.
Que o centenário do Paço Municipal possa ser lembrado como símbolo dessa convivência harmoniosa entre o antigo e o novo. Que as estações de trem, igrejas, armazéns de fumo, a antiga fábrica Suerdieck e os demais casarões sobrevivam não apenas como relíquias, mas como parte pulsante da vida urbana. Porque, no fim das contas, a história de Cruz das Almas não está apenas nos livros. Está nas esquinas, nas fachadas e nos tijolos que resistem. E quando a memória é preservada, a cidade continua viva, mesmo quando o tempo passa.

