No dia 5 de dezembro, sexta passada, Cruz das Almas acendeu as luzes do Natal. A praça brilhou com figuras enormes, coloridas, que chamam atenção pelas cores e pelo tamanho. Crianças riam, os adultos faziam fotos, os celulares piscavam como vaga-lumes. Tudo bonito. Mas eu, confesso, senti falta, procurei por algo que não estava ali.
Enquanto caminhava, me veio aquele cheiro de Natal antigo, guardado na memória como perfume de baú. Era o tempo dos presépios feitos com paciência e carinho, dentro das salas de visita das casas. Minhas avós e minhas tias, montavam os cenários com um misto de fé e arte. Aos meus olhos de menino, eram reinos inteiros. Tinha bonequinhos, casinhas de cartolina comprada na feira de sábado, coqueirinhos plantados em latas, enfeitados com bolas minúsculas. Estradinhas de areia formando caminhos, lagos de papel azul, matinhos improvisados com raminhos colhidos no quintal. E o menino Jesus, sempre no centro, como se tudo respirasse por causa dele.
Quem lembra dos presépios de D. Anísia? Costureira caprichosa. Ali as casinhas eram feitas de caixa de fósforo. Uma obra delicada, que fazia acreditar que existiam mesmo lugares assim, com portas minúsculas e janelas pedindo vento. Havia também o de D. Rizo, que misturava fé e imaginação com jeito de artista; e o de Tonho de Duca, onde a criatividade parecia brotar do chão.
O que mais me encanta é pensar como aquilo tudo cabia dentro de uma sala. Hoje temos bonecos gigantes, luzes que piscam em mil cores, música alta e tecnologia. Ontem, nossas avós criavam cenários inteiros com cartolina, palha e imaginação. Talvez seja isso o que falta. A simplicidade que falava ao coração.
De registro, existe ainda uma foto famosa do presépio de D. Nita. Uma verdadeira pequena cidade montada com cuidado. Ao lado da cena, aparece o cantor Jorge Martins, menino ainda. É a prova dessa tradição. Registro de uma época em que o Natal morava na palma das mãos e dentro das casas.
O que vejo hoje é bonito, claro. Mas não toca do mesmo jeito. A magia era outra. Vivia no detalhe. Nas casinhas de fósforo, nos coqueirinhos plantados na lata, nas estradinhas de areia que ligavam o portal da Estrela ao quarto da dona da casa. Vivia, sobretudo, em nós.
É… Talvez o mundo tenha crescido. Talvez tenhamos crescido. Mas dentro da memória, os presépios continuam do tamanho exato da nossa infância.

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