
Há histórias que parecem inventadas, mas dizem muito sobre uma cidade. Às vezes, elas cabem em um documento antigo, numa linha de cartório ou numa ausência que fala mais do que uma presença. É o caso das três Marias da Sapucaia, em Cruz das Almas. Parentes entre si, avó, mãe e filha, todas registradas apenas pelo primeiro nome. Nenhum sobrenome. Só Maria, Maria e Maria.
Sim, o caso é verídico. O registro foi feito por Anfilófio Lima de Oliveira e, na certidão de nascimento que tive acesso, constavam apenas e tão somente os primeiros nomes das três mulheres. Isso causa estranhamento hoje, quando o sobrenome é visto como parte natural da identidade. Mas o estranhamento é também uma porta para refletir sobre o passado.
Durante o período da escravidão, e mesmo após a abolição, muitas famílias negras tiveram seus nomes marcados pela imposição. Era comum receber o sobrenome do senhor proprietário ou, em outros casos, um sobrenome católico dado no batismo. Daí a grande presença de da Conceição, dos Anjos, de Jesus, de São Pedro e tantos outros que nasceram mais da necessidade administrativa ou religiosa do que de uma escolha familiar.
Por isso, a ausência de sobrenome dessas três Marias levanta uma pergunta legítima: teria sido apenas descuido, desinformação ou pobreza extrema? Ou teria sido, quem sabe, uma forma silenciosa de recusa, recusa em carregar o nome de quem escravizou seus antepassados, recusa em aceitar uma identidade concedida de cima para baixo, sem história própria?
Bem, não há quem responda com certeza. Mas o silêncio do registro também é um dado histórico. Ele revela como mulheres negras foram muitas vezes invisibilizadas pelo Estado, pela Igreja e pela sociedade. Revela também que a identidade nem sempre cabe nas regras oficiais. Às vezes, ela se guarda na memória, na família, na oralidade, na resistência discreta do dia a dia.
As três Marias sem sobrenome nos lembram que Cruz das Almas foi construída também por pessoas cujos nomes não entraram completos nos livros. Cabe a nós, hoje, olhar para esses vazios não como falhas menores, mas como sinais de uma história que precisa ser contada com mais cuidado, respeito e atenção. Porque até a ausência de um sobrenome pode tanto carregar em si um grande gesto de dignidade quanto a falta dela.
