Nesta foto pertencente ao acervo da Fundação Pierre Verger, vemos Florinda Anna do Nascimento, conhecida como Fulô, era cria da Fazenda Bom Sucesso em Cruz das Almas, de propriedade do Coronel Joaquim Inácio Ribeiro dos Santos e D. Ana Maria do Nascimento. D. Fulô era crioula, usava indumentária típica das mulheres de sua condição, talvez uma negra alforriada. Mas, quem foi Florinda Anna do Nascimento – a Dona Fulô?

Embora não se saiba a data precisa do nascimento da Dona Fulô no ano de 1827, é certo que a jovem Florinda foi criada como escrava e como tal passou a infância e a juventude na Fazenda Bom Sucesso, em Cruz das Almas. A Fazenda pertencia ao Coronel Joaquim Ignácio Ribeiro dos Santos e a sua esposa Anna Maria do Nascimento (pais do Dr. José Joaquim Ribeiro dos Santos, o doutor da “Fonte do Doutor ”, nascido em 1851 e já retratado em outras postagens neste site).
Na idade adulta Florinda foi morar em Salvador, na casa do Dr. José Joaquim Ribeiro dos Santos, filho do casal Joaquim Ignácio e Anna Maria. Como a esposa do Dr. José Joaquim morreu ainda jovem, Florinda assumiu o encargo de criação dos filhos do viúvo. Provavelmente foi “mãe preta”, tipo de escrava a qual se conferia lugar de relevo na família senhorial.
Alforriada, não se sabe o ano, Florinda recebeu o sobrenome de sua Senhora, como era costume entre alforriados de todo o Brasil. O coronel Joaquim Ignácio, em inventário e testamento, deixou à Florinda Anna do Nascimento a quantia de 500 mil réis, “em retribuição dos muitos serviços que ela tem prestado”.
Com o falecimento do Dr. José Joaquim Ribeiro dos Santos, em 1911, Florinda passou a morar na casa de Anna Adelaide, uma das filhas do Dr. José Joaquim que houvera ajudado a criar, ajudando também a criar os filhos dela e, assim, convivendo com a quarta geração da mesma família.
Florinda faleceu em 1931, ano em que completaria 104 anos. No registro de óbito – onde foi tratada como “Dona”, tratamento destinado a mulheres proeminentes -, consta que era solteira, sem filhos e sem testamento. Florinda está sepultada no mausoléu da família Ribeiro dos Santos no Cemitério do Campo Santo, em Salvador.


A foto de Florinda Anna do Nascimento, com as suas joias e adornos, ilustra a capa do livro “As Sinhás Pretas da Bahia”, de autoria de Antônio Risério (reproduzida nesta postagem).

NEGRAS CRIOULAS

As escravizadas de origem africana trazidas ou nascidas no Brasil nos períodos colonial e do Império não só usavam acessórios sofisticados como deram os primeiros passos na criação de um estilo de joalheria que pode ser considerado tipicamente brasileiro.
“Os índios não trabalhavam com metalurgia. As portuguesas e brasileiras brancas importavam o estilo europeu. Já as escravas, a partir de um mix de estilos, inauguraram um novo capítulo no design de joias”, afirma a pesquisadora e artista plástica Laura Cunha, autora do livro “Jóias de Crioula”.
Em parceria com o fotógrafo alemão Thomaz Milz, Laura Cunha pesquisou coleções particulares e acervos de museus e conseguiu reunir um registro surpreendente sobre os hábitos das escravas e negras alforriadas que viviam nas cidades, as “crioulas”.
Muitas delas podiam ficar com o excedente que conseguissem vendendo produtos como frutas e doces de tabuleiro para seus senhores. Como não tinham acesso a bancos, encomendavam aos ourives peças de ouro de baixo quilate, prata, coral, ossos, pedras locais e coco.
Assim, guardavam seu “pé-de-meia” nos colares, pulseiras, berloques e balangandãs. As joias exuberantes e coloridas contrastavam com as pérolas e diamantes usados pelas brancas.
“Essa espécie de poupança tinha muitas utilidades. Muitas dessas mulheres compraram sua própria liberdade e alforriaram parentes usando as joias como pagamento”, conta a autora.
Já as escravizadas de casas ricas eram adornadas por seus próprios senhores. Quando saíam para as ruas acompanhando suas senhoras ou crianças, eram exibidas em trajes finos e carregadas de joias.
“Nesses casos, a própria escrava era um objeto de ostentação do dono, um objeto de luxo a ser mostrado publicamente”, completa.
Do ponto de vista da inovação de forma, o livro revela que as joias de crioula eram uma mistura de elementos africanos, europeus e árabes.
Crucifixos e figas aparecem ao lado de figuras representando frutas, bichos e elementos ligados aos orixás, como o tridente de Exu. As joias de crioula tinham uma forte carga religiosa e mística.
Outra inovação veio na forma de uso dessas joias. As crioulas privilegiavam o excesso, usando colares, pulseiras, anéis e brincos juntos. Acima do valor de cada peça, estava o impacto visual dado pela fartura do conjunto.
(Fontes: Preciosa Florinda, organização de Eduardo Bueno e Ana Passos. As Sinhás Pretas da Bahia, de Antônio Risério)

notícia do mês

A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.