Volta e meia eu me pego seguindo rastros antigos, desses que a gente encontra mais na memória do que no chão. Foi assim, de novo, quando decidi buscar notícias da velha Fonte do Doutor. E como sempre acontece, quando a gente pensa que já sabe tudo, aparece mais uma ponta de história pedindo atenção.

Abro as páginas das memórias de Alyrio Mendes, esse guardador de lembranças que parece ter conversado com cada esquina da cidade, e é como se ele logo me puxasse pela mão, dizendo que Cruz das Almas não vivia só da Fonte do Doutor. Havia outras águas correndo, outros encontros acontecendo, outras risadas ecoando.

A tal Fonte do Doutor, é verdade, ganhou fama. Foi se tornando referência depois que Dr. Luiz Eloy Passos assumiu a prefeitura, lá pelos anos 30. Veio a reforma, o reservatório próprio cuidado por Nininho, e a função oficial de abastecer a cidade com água potável, graças a Zé de Bibiano. Virou símbolo. Virou notícia. Virou quase sinônimo de água boa.

Mas, enquanto ela subia ao palco, outras fontes seguiam seu curso, discretas, como quem não faz questão de aplauso.
Por exemplo: a Fonte da Nação na Sapucaia e a Fonte da Barrica no lugar hoje conhecido como Vila Guaxinim, ambas forneciam água potável com abundância.

A Fonte de Zé Pinto era lugar de banho, de descanso e de histórias meio tortas, onde biriteiros e aventureiros se ajeitavam depois de pegar carona nos caminhões de Teodoro, Mundinho Mangueira e Yôga. Era ali, entre Brejinhos e os caminhos da Estação Velha, que a vida também acontecia, sem cerimônia.

E havia os tanques. Ah, os tanques. Mistura de trabalho e conversa, de sabão e riso. O de Seu Ângelo, nas bandas da Banguela (hoje Sorriso). O de Donana de Pixú, no Areal. O de Zé Pinto, que servia para tudo um pouco. Já os de João Gonçalves, de Seu Cazuzinha e de Thomé eram mais para o banho, para aliviar o corpo e a cabeça.

Cada um tinha seu mapa para chegar lá, que hoje quase ninguém sabe de cor. Ficavam espalhados como pequenas ilhas de água numa cidade que ainda aprendia a crescer.

E, como se não bastasse, tinha o Rio Capivari, que era corrente, caudaloso, perigoso até. Mas num domingo de sol, era mergulho sem pressa, rapazes lavando bicicleta ou refrescando os animais de montaria. Era o que hoje a gente chama de simples, mas que na verdade era o que havia de melhor.

No fim das contas, a Fonte do Doutor ficou com a fama. E talvez mereça mesmo. Mas a cidade, essa nunca foi feita de um só lugar.

Ela é feita dessas águas todas. Algumas ainda correndo. Outras já secas, mas guardadas na lembrança de quem insiste em não esquecer.

E para entender a localização geográfica da época, Seo Alyrio brinda-nos com o seguinte glossário:

  • Tanque de Zé Pinto: ficava em Brejinhos, entre a Tabela e a Estação Velha ou de Pombal;
  • Tanque de João Gonçalves: na Assembleia, próximo ao Lago do Clube de Campo Laranjeira;
  • Tanque de Seu Ângelo: nas imediações da Banguela, atual Sorriso, próx. da Praça de Esportes;
  • Tanque de Seu Cazuzinha: fundos de onde hoje é o Solar Eventos;
  • Tanque de Donana de Pixú: no Areal;
  • Fonte da Nação: na Sapucaia
  • Fonte da Barrica, na Escola, atual Vila Guaxinim e,
  • Tanque de Thomé: no final da rua Estrada de Ferro com a Escola de Agronomia, atual UFRB. (FONTE: MENDES, Alyrio. A Fonte do Doutor II – Ainda sobre fontes e tanques também.)

OBS: imagem meramente ilustrativa

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A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.