PAULO CÉZAR, O PROFESSOR.

Finalmente, chegou o momento de falar sobre ele, essa figura que fascinou grande parte dos jovens que tiveram a felicidade de frequentar sua classe, tanto no curso secundarista como no curso superior e que o saudoso professor de Biologia Luizinho, se referia ao nosso homenageado como “Mestre”, num gesto de reverência e apreço à sua pessoa. Foi meu professor de Química e Biologia no cursinho, onde babávamos diante de tão boa didática e de tanto conhecimento. Estamos falando de Paulo Cézar, professor e Engenheiro Agrônomo, ex pesquisador da Embrapa – Mandioca e Fruticultura, foi meu orientador de estágio já no meu segundo ano de Agronomia da UFBA. Vários aspectos relacionados a um professor podem ser percebidos pelo aluno (como fala e anda, como se veste, se torce pro Bahia ou Vitória…). Tem aluno que se esquece de estudar e fica apenas tietando o professor durante o ano todo. Veja que nos idos de 1982 o nosso “artista dos livros” queimou a mão quando soltava uma espada de são João. No dia seguinte todo mundo já sabia do ocorrido, pois se tratava de uma pessoa amada pelos estudantes e que despertava também o interesse sobre sua vida extra classe. Na verdade, nossos mestres são simples mortais, do mesmo modo como todos somos, com altos e baixos ao longo da vida, que sofrem na tristeza, que se regozijam na alegria e enfrentam suas lutas no dia a dia. O Professor Weliton queimou a boca, professor Paulo Cézar queimou a mão…. e assim caminha a humanidade. Certa vez, me parece que em 1979 ou 1980, o professor Sebastião (de matemática) trouxe jalecos de Salvador para que os professores do cursinho os usassem durante as aulas. O cursinho tinha um pequeno escritório próximo ao quadro de giz, onde se guardavam pequenos materiais e onde havia sempre um funcionário de prontidão. Foi ali que o professor Paulo Cézar vestiu seu jaleco pela primeira vez e se dirigiu ao tablado para iniciar a aula daquela noite. Ele sempre foi uma pessoa muito desconfiada, e foi assim mesmo, desconfiado, que ele surgiu diante do quadro de giz. Parecia que já sabia o que poderia acontecer quando o vissem assim. Pois, quando ele subiu no tablado e antes de falar qualquer coisa, a estudante Ademildes (Mica de 21), que já estava sentada aguardando o inicio da aula, ao vê-lo deu uma grande gargalhada, apontando para o ilustre professor. Nosso mestre, prevendo o sinistro, voltou para o escritório de ré, feito um raio, tanto que poucos puderam vê-lo de jaleco. Retornou, depois, sem a indumentária, fazendo de conta que nada havia acontecido e iniciando a aula. A suada vida acadêmica gerou visíveis acúmulos em nosso mestre, conduzindo-o à Embrapa e depois à Escola de Agronomia da UFBA. Lembro-me como se fosse hoje, um estudante veterano da Agronomia, preocupado com a aprendizagem, perguntou ao então Coordenador do Colegiado de Engenharia agronômica se o professor que viria a assumir uma dada disciplina era bom. O Coordenador, de pronto, respondeu: “Paulo Cézar já era professor desde o ventre da mãe dele”. Foi aí que percebi que tratava-se do meu antigo professor de cursinho pré vestibular. Tive o prazer de sua convivência em alguns momentos importantes da vida acadêmica e antes dela, o que muito me honra. Aliás, eu e Luizinho fomos lançados no magistério pelo respeitado professor, que não admitia conversinha em sua classe. Era comum dirigir-se à turma que conversava durante a aula, dizendo: “quem não quiser assistir à aula pode sair pela porta, pela janela, pelo telhado… fique à vontade”. Os conversadores, então, se calavam, num misto de temor e respeito ao eterno mestre. Talvez ele não saiba, mas a galera se divertia diante de tão desproporcional esporro. Pronto, já estava garantido assunto para o ano inteiro. Agora, já aposentado, para coroar definitivamente as suas ações pela educação, nos brinda a todos com a identificação de uma nova espécie de mandioca (M. cezarii), publicado no periódico NOVON, do Missouri Botanical Garden, cujo nome específico é dado em sua homenagem (Cézar). Pensei, Paulo Cézar trabalha caladinho, pois achava que, uma vez aposentado, estaria se dedicando apenas às crônicas que escreve para conhecido blog local. Que nada, ele estava trabalhando em mais uma de suas pesquisas. Por esta identificação, outra pessoa, talvez, estivesse soltando foguetes até agora, chamando a atenção de todos para si, mesmo porque é um feito fantástico. Mas, se assim fosse, não seria mais ele, pois trata-se de uma pessoa muito discreta, que detesta holofotes e vai vivendo assim a sua vida, contribuindo para com a sociedade e para com a ciência. E é por isso mesmo, vivendo o seu excentrismo, que arrebanhou muitos fãs em Cruz das Almas e Região, colaborando com a formação de tantos profissionais espalhados pelo mundo a fora. Há três anos conheci uma bióloga na região Oeste do Estado que lembrou dele a certa altura da nossa conversa, e a quem fez elogios enormes, pois teria sido sua colega durante o doutoramento na UEFS. Boa reputação soa bem aos ouvidos, principalmente quando o alvo é uma pessoa de quem gostamos. As pessoas, na verdade, estão permanentemente observando uma a outra, que lhes chamam a atenção por algum motivo. Pois, o juízo a que fazem nosso amado mestre é dos bons, o que faz dele uma pessoa de moral ilibada e de conduta irretocável. Vai aqui a nossa gratidão por tudo que tem realizado e continua realizando, dentro da sua possibilidade, transferindo conhecimento e sendo exemplo de grande figura humana que é. Ave, Cézar!

(Crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

Veja também: https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/4195-professor-da-ufrb-e-homenageado-com-nome-de-nova-especie-de-mandioca-silvestre

Publicado por

Edisandro Barbosa Bingre

Escritor, poeta, pesquisador memorialista. Em 2020 foi agraciado pela Câmara de Vereadores com o Título de Cidadão Cruzalmense.

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