No início do século XX, a política baiana era um campo minado por disputas intensas, alianças frágeis e confrontos abertos. Entre 1900 e 1910, o cenário estadual foi marcado pelo embate entre os grupos liderados por Severino Vieira e José Marcelino, de um lado, e o grupo que ascendeu ao poder com Araújo Pinho, de outro. Foi nesse contexto de acirramento extremo que Cruz das Almas viveu um dos episódios mais duros de sua história política.
Os fatos ocorridos no município em 30 de março de 1908 ganharam dimensão nacional ao serem denunciados no plenário da Câmara Federal. A denúncia foi proferida pelo deputado Pedreira Franco, durante a sessão de 4 de junho de 1908, ficando registrada nos anais parlamentares como um testemunho contundente da violência política que então grassava na Bahia.
Em sua fala, o parlamentar não poupou palavras ao descrever o que se passou. Declarou não ter sequer coragem de relatar plenamente à Câmara os atos de violência e de selvageria, que classificou como inqualificáveis. Cruz das Almas foi citada de forma direta e dolorosa. Segundo o discurso, o município, onde o senador Themistocles da Rocha Passos, descrito como o patriarca da terra e dirigente da política local por cerca de quarenta anos, havia se posicionado ao lado de Severino Vieira, tornou-se palco de cenas alarmantes.
De acordo com o relato, a vila foi assaltada por um destacamento que, nas palavras do denunciante, era composto quase exclusivamente por bandidos. À frente da tropa, arruaceiros percorriam as ruas, espalhando o medo entre a população. No próprio dia 30 de março, após o episódio que o orador chamou de célebre comédia que reconheceu Araújo Pinho como governador, novas violências se sucederam. O saldo foi devastador. Vinte e uma casas foram danificadas, com portas arrombadas a machado. Nem mesmo os jardins escaparam. As flores foram destruídas, e os quintais ficaram completamente arrasados, num gesto que ultrapassava a intimidação política e atingia o cotidiano, a dignidade e a vida privada dos moradores. Ao concluir sua intervenção, o deputado Pedreira Franco fez questão de registrar que o ocorrido em Cruz das Almas não era um fato isolado. Episódios semelhantes teriam se repetido em grande parte dos municípios baianos, revelando um padrão de violência institucionalizada em meio às disputas pelo poder.
Resgatar esse registro não é apenas revisitar um episódio local, mas compreender como a história política de Cruz das Almas se insere num quadro mais amplo de autoritarismo e conflito. É também um convite à reflexão sobre o valor da democracia, da legalidade e da memória, para que cenas como aquelas, denunciadas em 1908 no plenário da Câmara Federal, jamais sejam naturalizadas ou esquecidas.




