Há exatos 81 anos, Cruz das Almas recebia a notícia dolorosa da morte de um de seus filhos mais queridos. Em 19 de maio de 1945, falecia na Itália o soldado Antônio de Souza, o nosso inesquecível Toninho de Castor, expedicionário cruzalmense que integrou as forças brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial.
Recordar a história de Toninho é mais do que um dever histórico. É um compromisso moral da cidade com a sua juventude. Toninho de Castor não era apenas um soldado. Era um rapaz do povo. Um jovem negro, apaixonado por futebol, conhecido pelo chute forte que assustava os goleiros adversários nos jogos do Comercial F. C., no antigo Estádio Itapicuru. Ao lado do amigo Waltércio Barroso da Fonseca, o Fonsequinha, formava uma dupla que fazia a torcida vibrar nas tardes esportivas de uma Cruz das Almas ainda pequena, simples e profundamente humana.
Mas o destino daquele jovem atleta cruzalmense foi atravessado pela maior guerra do século XX.
Natural de Cruz das Almas, filho de Calixto José Trindade e Maria Esmeralda de Souza, nascido em 13 de maio de 1922, Antônio de Souza foi para Salvador e, de lá, embarcou rumo à Itália no 4º Escalão da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, partindo em 23 de novembro de 1944 a bordo do navio General Meigs. Como tantos brasileiros enviados ao front europeu, levava consigo não apenas uma farda, mas os sonhos, os medos e a coragem de uma geração inteira.
Poucos meses depois, em maio de 1945, já próximo do fim da guerra, Toninho perderia a vida afogado no rio Pó, ao terminar a instrução física, por ocasião do banho dos praças do 1º RI. Teve assim a sua juventude interrompida.
Nos dias de hoje, muitos jovens cruzalmenses passem diariamente pela Praça do Expedicionário, conhecida popularmente como Pracinha do Soldado, sem imaginar que aquele espaço nasceu justamente para eternizar a memória de um rapaz da própria cidade que atravessou o oceano para lutar em uma guerra mundial.
A praça começou a surgir no início da década de 1950, quando o prefeito Jorge Guerra decidiu transformar um terreno abandonado, cheio de mato e entulho, em um espaço digno para a população. A ideia de homenagear Toninho de Castor com uma praça e uma estátua foi posteriormente defendida por Dr. Waltércio Fonseca, que mobilizou amigos e a comunidade para tornar o projeto realidade.
A prefeitura urbanizou o local, o comércio doou os bancos, amigos arrecadaram recursos e o escultor Francisco Marques, funcionário da então Escola Agrícola da Bahia, foi encarregado de produzir o monumento inaugurado em 15 de novembro de 1953, em meio a grande festa popular.
Pouca gente sabe, mas aquela estátua é um patrimônio raro. O monumento de Cruz das Almas está entre as primeiras homenagens públicas do Brasil dedicadas a um pracinha da Segunda Guerra Mundial. Um símbolo silencioso de coragem plantado no coração da cidade.
Com o passar dos anos, a estátua sofreu danos. Um galho caiu sobre ela e, após reformas, o fuzil original acabou removido. Ainda assim, permanece ali, firme, como um guardião da memória cruzalmense. E talvez seja justamente aí que mora a grande lição.
Uma cidade não vive apenas de ruas, prédios e comércio. Uma cidade vive de memória. Vive das histórias que escolhe preservar. Vive dos exemplos que entrega às novas gerações.
Quando a juventude conhece personagens como Toninho de Castor, ela compreende que Cruz das Almas não surgiu pronta. Foi construída também pelo esforço de homens simples, anônimos para o mundo, mas gigantes para a história local.
Conhecer a trajetória de Toninho é entender que heróis também nasceram aqui. Caminharam pelas mesmas ruas, frequentaram os mesmos campos, tiveram os mesmos sonhos juvenis.
Em tempos de tanta superficialidade, talvez seja exatamente disso que mais precisamos: jovens que saibam de onde vieram para compreender melhor para onde desejam ir.
Que a Praça do Expedicionário com a estátua do jovem Toninho de Castor nunca seja apenas um ponto de passagem, mas que continue sendo um lugar de memória, respeito e identidade para Cruz das Almas.
(EDISANDRO BARBOSA BINGRE, escritor, memorialista, Historiador em formação e membro da Academia Cruzalmense de Letras)

