Entre os muitos motivos de orgulho dos moradores de Cruz das Almas, um deles costuma aparecer com frequência nas conversas sobre a cidade: suas ruas largas. Quem chega pela primeira vez dificilmente deixa de notar a amplitude de muitas vias urbanas, especialmente quando comparadas às de outras cidades do interior baiano. Há quem diga que parecem ter sido planejadas. E talvez tenham sido mesmo.

Ao longo das décadas, essa característica ajudou a acomodar o crescimento da frota de veículos e contribuiu para uma sensação de espaço que se tornou parte da identidade local. Mas uma pergunta se impõe: e os pedestres?

Se as ruas parecem ter recebido atenção no desenho urbano, o mesmo não se pode dizer das calçadas. Em grande parte da cidade, caminhar tornou-se um exercício de obstáculos. Há passeios estreitos, desnivelados, esburacados ou simplesmente inexistentes. Em muitos trechos, cada proprietário construiu a calçada à sua maneira, sem qualquer padrão de altura, largura ou revestimento.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa a questão da acessibilidade. Pessoas idosas, cadeirantes, deficientes visuais, mães com carrinhos de bebê e cidadãos com mobilidade reduzida enfrentam dificuldades diárias para circular com segurança. Em alguns casos, a única alternativa é descer para a rua e dividir espaço com os automóveis.Não bastassem os problemas estruturais, há ainda a ocupação irregular dos passeios. Materiais de construção, entulhos, lixeiras improvisadas, veículos estacionados e até jardins avançando sobre a área pública transformam a caminhada em um percurso imprevisível. O espaço destinado ao pedestre acaba sendo tratado, muitas vezes, como uma extensão da propriedade privada.É curioso observar essa contradição. Uma cidade reconhecida pela largura de suas ruas convive com calçadas que frequentemente ignoram a existência de quem anda a pé. Como se o planejamento urbano tivesse parado no meio do caminho. Como se o direito de circular fosse garantido apenas a quem está dentro de um veículo.

As cidades mais humanas do mundo não são aquelas que privilegiam apenas o trânsito de automóveis. São aquelas que permitem que as pessoas caminhem com conforto, segurança e dignidade. Afinal, antes de ser motorista, todo cidadão é pedestre. Talvez seja o momento de Cruz das Almas ampliar o debate sobre seus espaços públicos. Discutir padrões para calçadas, incentivar a acessibilidade, fiscalizar ocupações indevidas e compreender que o passeio público não é um detalhe da paisagem urbana. Ele é parte essencial dela.

As ruas largas continuarão sendo motivo de orgulho, mas uma cidade verdadeiramente planejada não termina no meio-fio: ela segue até a porta de casa, passando necessariamente pela calçada. E é justamente nesse trecho que Cruz das Almas tem um longo caminho a percorrer.

(EDISANDRO BARBOSA BINGRE, escritor, memorialista, historiador em formação e criador do Almanaque Cruzalmense)

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A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.