Nas últimas décadas, poucas expressões provocaram tanta fascinação e medo quanto o termo Inteligência Artificial. Filmes, romances e discursos futuristas ajudaram a consolidar a ideia de máquinas capazes de pensar, sentir e substituir seres humanos em praticamente todas as atividades criativas. Contudo, grande parte desse imaginário nasceu menos da realidade técnica e mais de um equívoco de nomenclatura.
O que hoje chamamos de Inteligência Artificial não é inteligência no sentido humano da palavra. Trata-se, sobretudo, de um sofisticado conjunto de ferramentas digitais construídas por pessoas, alimentadas por dados produzidos por pessoas e orientadas por comandos humanos.
O próprio filósofo e cientista cognitivo John Searle, em seu famoso argumento do Quarto Chinês, já alertava que processar símbolos não significa compreender significados. Um sistema computacional pode responder com enorme eficiência, reconhecer padrões e produzir resultados complexos sem possuir consciência, intenção ou entendimento verdadeiro. Em outras palavras, a máquina executa operações; ela não experiencia o mundo.
O pesquisador norte-americano Joseph Weizenbaum, pioneiro da computação e criador do programa ELIZA ainda nos anos 1960, também demonstrava preocupação com a tendência humana de atribuir sentimentos e inteligência real aos computadores. Para ele, existia um risco cultural de confundirmos simulação de linguagem com pensamento genuíno. Décadas depois, a observação continua atual.
A chamada IA funciona por meio de modelos matemáticos, estatísticos e computacionais treinados para reconhecer padrões em grandes volumes de informação. Não há ali imaginação espontânea, memória afetiva, dor, saudade, fé, desejo ou intuição. Há cálculo. Há correlação de dados. Há velocidade de processamento. Isso não diminui sua importância. Apenas define sua natureza.
Por essa razão, talvez o termo mais adequado fosse inteligência assistida ou processamento digital avançado. O nome Inteligência Artificial sugere autonomia mental e capacidade subjetiva semelhantes às humanas, quando, na verdade, o sistema depende integralmente daquilo que os seres humanos produzem, organizam e fornecem. Sem repertório humano, não existe resposta computacional.
Nesse contexto, é exagerado afirmar que a IA veio para substituir artistas, escritores, músicos ou criadores chamados analógicos. A arte humana não nasce apenas da técnica. Ela nasce da experiência vivida. Um pintor carrega em sua obra as marcas de sua infância, de suas dores, de seus afetos e de sua visão singular do mundo. Um poeta cria movido por sentimentos que nenhuma máquina experimenta. Um compositor transforma emoções em melodia porque possui memória emocional. A ferramenta digital pode auxiliar, ampliar possibilidades e acelerar processos, mas não possui a chamada “existência sensível”.
O filósofo e crítico literário Walter Benjamin, ao discutir a obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, já observava que existe algo singular na criação humana que não se reduz ao mecanismo de reprodução. Décadas depois, a discussão permanece válida. A tecnologia muda os meios, mas não elimina a dimensão humana da criação artística.
Além disso, a história mostra que toda nova tecnologia gerou receios semelhantes. A fotografia não extinguiu a pintura. O cinema não destruiu o teatro. A televisão não acabou com o rádio. O computador não eliminou os livros. Ao contrário: cada inovação reorganizou linguagens, ampliou possibilidades e obrigou artistas e profissionais a reinventarem suas formas de expressão.
A chamada IA parece seguir caminho semelhante. Ela pode democratizar recursos criativos, auxiliar pesquisas, facilitar tarefas repetitivas e servir como instrumento de apoio intelectual e artístico. Um escritor pode utilizá-la para organizar num texto ideias que são suas. Um designer pode acelerar etapas técnicas de uma criação sua. Um músico pode experimentar novos arranjos para a sua composição. Mas o sentido humano da criação continua pertencendo ao ser humano.
Por tudo isso é que digo: não tema a IA. Não é necessário temer aquilo que pode ser compreendido. O medo costuma crescer justamente onde existe desconhecimento. Quando observada com serenidade e senso crítico, a Inteligência Artificial deixa de parecer uma entidade misteriosa e passa a ser aquilo que efetivamente é: uma poderosa ferramenta digital criada pela inteligência humana.
É verdade que ferramentas não possuem alma, martelos não constroem casas sozinhos, pincéis não pintam quadros sem mãos humanas, computadores não sentem poesia; mas todos são usados pelos humanos para realizar as suas criações. A diferença entre seres humanos e sistemas computacionais não torna um superior ao outro. Apenas os coloca em categorias distintas. No fim das contas, talvez a grande questão não seja usar ou não a tecnologia, mas até onde o ser humano saberá utilizá-la com responsabilidade, ética e sensibilidade. Porque, para mim, o que vale é a intenção de quem a utiliza e não o julgamento de quem desconhece e não usa.
(EDISANDRO BARBOSA BINGRE, escritor memorialista, historiador em formação, criador do Almanaque Cruzalmense e membro da Academia Cruzalmense de Letras)

