Há tempos, Cruz das Almas aprendeu a acolher sonhos. A partir da chegada da Escola de Agronomia da Bahia, em meados da década de 1940, a cidade passou a receber jovens vindos de muitos lugares. Eram estudantes da Bahia inteira, de outros estados e, em alguns casos, até de outros países. Vinham em busca de um diploma, mas encontravam muito mais do que isso.Encontravam uma segunda casa.

Com o aumento do número de estudantes, surgiu uma necessidade imediata: moradia. Foi então que muitas famílias cruzalmenses abriram as portas de suas residências. Casas antigas, amplas e cheias de vida transformaram-se em pensões que passaram a acolher aqueles rapazes e moças que chegavam carregando malas, saudades e esperanças.

Nas proximidades da Escola de Agronomia, no centro da cidade e em diversos bairros, as pensões tornaram-se parte da paisagem urbana e da vida social de Cruz das Almas.

Cada uma tinha suas características. Algumas ofereciam quarto, alimentação e roupa lavada e passada. Outras forneciam apenas hospedagem e os cuidados com as roupas. Havia também as mais simples, destinadas somente ao repouso dos estudantes.

Nem todos, porém, moravam em pensões familiares; dentro do próprio campus existiam alojamentos total ou parcialmente subsidiados, conhecidos por apelidos que ficaram famosos entre gerações de estudantes: o Hospício, o Frigorífico e o Hospital. Os dois primeiros eram destinados aos rapazes. O último abrigava as moças. Os nomes, criados pela irreverência do humor estudantil, atravessaram décadas e ainda hoje despertam lembranças e boas histórias entre os antigos alunos.

Mas eram as pensões familiares que deixaram marcas mais profundas. As donas tornavam-se verdadeiras mães adotivas, os donos aconselhavam e ambos repreendiam quando necessário, comemoravam aprovações e ofereciam conforto nos momentos de saudade.

O café passado na hora, o bolo recém-saído do forno e as conversas na varanda ajudavam a diminuir a distância de casa. Algumas dessas pensões entraram definitivamente para a memória da cidade. Uma das mais lembradas era a de Seo Láu, localizada no centro. Sua fama ultrapassava as fronteiras de Cruz das Almas por um motivo bastante incomum. Segundo relata Renato Passos da Silva Pinto Filho no livro Cruz das Almas dos Meus Bons Tempos, Seo Láu criava duas jibóias soltas dentro de casa. Quando alguém demonstrava espanto, ele explicava tranquilamente que as cobras serviam para controlar os ratos e que eram muito mansinhas. Como se isso não bastasse, gostava de passear pelas ruas com as jibóias enroladas no pescoço, para surpresa de quem o encontrava pelo caminho. A história atravessou gerações e tornou-se uma das mais curiosas lembranças da cidade.

Outras pensões também ficaram gravadas na memória afetiva dos cruzalmenses. Havia a pensão do senhor Mathias, na Tabela eram bastante conhecidas a pensão do senhor Nelson e a do senhor Fausto, vizinhos um do outro e referências para muitos estudantes e viajantes que passaram pela cidade. E quem viveu aqueles tempos certamente se lembra também da famosa pensão de Zizi Borboleta, personagem inseparável da história dessas hospedagens familiares. Ali se reuniam jovens das mais diversas origens, dividindo mesas, quartos, histórias e sonhos. Muitos chegavam tímidos, sem imaginar o rumo que a vida tomaria. Com o passar dos anos, aqueles estudantes tornaram-se profissionais respeitados e líderes em suas áreas de atuação. Das pensões e alojamentos de Cruz das Almas saíram renomados agrônomos, médicos, professores universitários, pesquisadores, reitores, vereadores, secretários de Estado, prefeitos, ministros e até governador da Bahia. Antes dos cargos, dos títulos e do reconhecimento público, eram apenas rapazes e moças tentando construir o próprio futuro em uma cidade que os acolheu de braços abertos.

Com o passar dos anos, especialmente entre os estudantes da Agronomia, surgiram também as repúblicas estudantis. Ainda assim, as pensões continuaram exercendo um papel fundamental na vida da cidade. Ali nasceram amizades duradouras, histórias de amor, compadrios e laços que sobreviveram ao tempo. Muitos estudantes só deixaram a pensão quando se casaram. Outros, mesmo depois de formados, continuavam visitando aquelas casas e as pessoas que os acolheram nos anos da juventude. As pensões de Cruz das Almas foram muito mais do que simples hospedarias, foram lugares onde se dividiam refeições, alegrias, preocupações e sonhos. Foram escolas silenciosas de convivência, solidariedade e afeto e, talvez por isso, ainda sejam lembradas com tanto carinho, porque para centenas de jovens que chegaram à cidade sem conhecer ninguém, aquelas casas representaram exatamente aquilo que mais precisavam encontrar: um lar longe de casa.

E, sem que imaginassem, aquelas cozinhas, aquelas canecas de café, aquelas mesas compartilhadas e aqueles quartos alugados ajudaram a formar não apenas estudantes, mas homens e mulheres importantes para a Bahia e para o Brasil.

notícia do mês

A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.