23 de junho: o dia da fogueira que acende as Chegou o dia 23 de junho; o dia oficial de acender a fogueira de São João.

A esta altura, Cruz das Almas já mudou de cheiro, de cor e de alma, mas a tradição teimosamente resiste. (E se depender do meu vizinho Edson, ela perdurará!)

Há quem olhe para uma fogueira e veja apenas madeira empilhada. Mas quem nasceu ou viveu na Cruz das Almas dos bons tempos sabe que uma fogueira nunca foi somente fogo. Ela é um ícone aceso no meio da rua.

Dias antes, os homens já juntavam troncos de árvores secas, meninos saíam pelos caminhos juntando galhos, e pedaços de madeira, era uma missão levada a sério. Cada casa queria erguer a fogueira mais bonita, mais alta, mais vistosa. Enquanto isso, dentro de casa, as mulheres preparavam os licores, cozinhavam o milho, mexiam os mungunzas e cuidavam dos quitutes que fariam parte da grande celebração. As bandeirolas coloridas já dançavam penduradas ao sabor do vento e a ansiedade crescia durante o dia inteiro. As crianças contavam as horas para a chegada da noite, como quem espera um presente.

E, quando o sol desaparecia, a cidade parecia acender junto com as primeiras chamas.

Ao redor da fogueira acontecia de tudo: crianças pulando tocando traques de massa e chuvinhas, enquanto os adultos desfiavam conversas que atravessavam gerações, os mais velhos contavam histórias repetidas pela centésima vez e ouvidas com o mesmo encanto; risadas soltas, encontros de amigos e abraços de parentes que chegavam de longe para passar os festejos juninos na terra natal.

A fumaça subia lentamente para o céu estrelado, levando consigo o perfume do milho assado, da laranja, do amendoim cozido e das lembranças que se misturavam ao clarão das chamas. Ao fundo, o som da sanfona de Luiz Gonzaga ecoando de alguma vitrola instalada perto da porta de casa; ao longe, o som das espadas que pareciam conversar com o crepitar da lenha queimando.

Em Cruz das Almas, a fogueira sempre teve um significado especial. Mais que uma tradição religiosa ou um elemento decorativo das festas juninas, ela é (ou era) um símbolo de pertencimento. Ao seu redor, famílias se reuniram durante décadas, namoros começaram, amizades foram fortalecidas e infâncias inteiras foram construídas sob a luz tremulante daquele fogo.

Talvez por isso a fogueira de São João, acesa no dia 23, continue emocionando tanta gente. Porque ela muito mais do que iluminar a noite, ela traz à luz recordações. Traz de volta rostos queridos, faz reaparecer, por alguns instantes, pessoas que já partiram, ruas que mudaram e tempos que não voltam mais.

Aquecem o coração porque o verdadeiro calor da fogueira não está na lenha que arde, está nas memórias que permanecem vivas dentro de cada um de nós.

E enquanto houver um vizinho Edson que mantenha a tradição da fogueira acesa na noite de São João, haverá também uma ponte ligando o presente às lembranças mais felizes da Cruz das Almas dos nossos bons tempos.

Viva São João! Viva as fogueiras! Viva as memórias que o tempo jamais consegue apagar.

notícia do mês

A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.