Ontem, passando ali pela icônica Rua da Vitória (atual Manoel Vilaboim), lembrei-me de uma história extraordinária que ouvi no tempo em que eu trabalhava numa loja no centro da cidade. Aliás, foi o período que mais ouvi histórias curiosas sobre personagens de Cruz das Almas. Vejam se essa história não se parece mais com um capítulo de rádio novela do que vida real…

Era por volta da década de 40, e um jovem empresário da indústria fumageira, de família importante, ainda aprendia os caminhos do negócio de compra, venda e exportação de fumo. Dividia o tempo entre as plantações, os armazéns e as viagens de trem ou no vapor. Era cheio de planos e, como tantos outros moços, também se deixava levar pelos encantos da juventude.

E, sempre que ia a Salvador, havia um destino quase certo: o elegante Dancing Savoia, famoso na Bahia, onde as grandes orquestras embalavam as noites da capital e a sociedade se reunia para dançar. Foi ali que conheceu Lourdes.

Ela era uma das dançarinas mais admiradas do salão. Bonita, elegante e dona de um charme que chamava atenção por onde passava. Muitos tentavam conquistar seu coração, entre eles um doutor bastante conhecido na cidade. Mas Lourdes preferiu o jovem empresário.

A escolha, no entanto, não agradou a todos. Conta-se que o doutor, inconformado, chegou a fazer ameaças. Para evitar problemas maiores, o casal resolveu se afastar de Salvador por algum tempo. E o destino escolhido foi… Cruz das Almas!

Numa casa alugada na Rua da Vitória, viveram dias tranquilos, bem diferentes do movimento da capital. Caminhavam pelas ruas da cidade, levavam uma vida discreta e, para muitos moradores, pareciam apenas um casal vivendo uma nova paixão.

Mas algumas paixões são intensas demais para durar.

Depois de algum tempo, poucos acostumados com o marasmo da cidade do interior, voltaram para Salvador e o relacionamento chegou ao fim. A separação foi muito mais difícil para Lourdes.

Dias depois, num domingo de carnaval, quando o empresário se encontrava almoçando num famoso hotel, com os pais e irmãos, eis que aparece à sua procura um policial esbaforido, muito nervoso. Relatou que uma mulher tinha se atirado da janela de um prédio no bairro da Federação, e que, ao ser socorrida, gritava insistentemente pelo nome do jovem empresário. A mulher era a dançarina do Savoia que havia tentado o suicídio. Encontrava-se ferida, mas sem gravidade.

O episódio, claro, teve de ser abafado, para evitar um escândalo. Foi tratado com muita discrição, como eram sempre os casos que envolviam pessoas de famílias influentes.

Enfim…

A vida seguiu seu curso e o jovem empresário continuou sua trajetória de bon vivant. Já Lourdes, a dançarina do Savoia, ninguém mais teve notícias; ficou guardada apenas na memória de quem conheceu essa história à época.

E em Cruz das Almas, essa curiosa história é quase esquecida pelo tempo. Pouca gente conhece ou sequer imagina que uma das mais elegantes dançarinas do famoso Dancing Savoia viveu um tórrido romance, ainda que por pouco tempo, numa casa simples, ali, na Rua da Vitória.

notícia do mês

A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.